domingo, 27 de maio de 2012

O Lamurio da Esperança

"Devem estar ainda em algum lugar as pobres coisas"
Konstantinos Kaváfis. O Sol da Tarde

Eu trago o passado em sufusão
Tentando existir des-integrado,
Porém, novamente sou tragado
Pela bestialidade desta invenção,

A endocardite e seu intento
Atestando o asco espectral,
Todo suspense é residual;
Eis a macropia do lamento.

Entre a tormenta e o túmulo,
A indiferença atesta o acúmulo
De tantas sombras nesta alcova,

Em tudo o que foi prometido,
Certamente poderíamos ter sido,
Contudo, a rachadura se renova.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Sufíbulo da Alma

"(...) and with a pain
No hell shall make me fear again"
        Edgar Allan Poe

A dor do regresso
é o pior dos tormentos
que encontro nos momentos
da espera em recesso,

quando a anemia dialoga
com o pretenso fracasso,
o cenário é esparso
e vai além da sinagoga,

não há exorcismo para mim,
não sou -mais- réu primário
da catástrofe ao obituário
o meu fim é sempre assim,

nunca aposte sua cabeça
com o diabo, dizia
o apostador em primazia
espero que não aconteça

a colheita das almas errantes,
[esta foi a minha aposta]
aquém da vertigem exposta
encontram-se as vozes torturantes

deste inferno metafísico. Entretanto
o vazio ainda prospera
lá onde o isolamento dilacera
qualquer possibilidade de espanto.

domingo, 20 de maio de 2012

Insustentável

"A nostalgia pior é a do instante presente"
Paulo Henriques Britto


A ilusão e o bem estar
são artífices da mesma história,
designam a própria escória
que Merodaque se pôs a cortejar,

eu espero, sem nenhuma glória,
e esperar, você sabe, é sangrar,
não há nada mais familiar
que esta monstruosidade simplória

e sem aspiração, do aborto
da autonomia ao verso torto
a saída segue esquecida

por entre diásporas e saques,
-vernáculos despidos de seus fraques-
a razão é a minha ferida.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Quarto 606







"Negotium perambulans in tenebris..."
 Salmos 91:6

Tal como um ritual mesopotâmico
de adoração a seres esquecidos,
encontro-me entre os fenecidos
perante este velório oceânico

onde, do preâmbulo ao bálsamo
o fascínio molesta a consignação,
Alhazred aquém da calefação
designa o constructo de sésamo

deste poeta em vias de derrota,
pois cada palavra não exorta
o arrefecido gesto mortuário:

ceder ao negrume que corta
o mesmo endereço, a mesma porta,
a mesma existência sem latrinário.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Espelho

A exumação que não acontece.
O vazio que não se preenche.
Está é a prisão sem feixe
Que minha inaptidão apetece,

Pois, sou a alcova da noite,
Sem melodia e sem afeto,
Estou nulo em mim, decerto
Servirei perfeitamente ao açoite;

Que minhas carnes sejam ingeridas,
Que sobrem apenas as feridas,
Tal como um relicário de fracassos.

Eu coaduno o vazio presencial,
Sem liturgia, sem Belial,
Eu. Apenas eu e meus percalços.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Chagas Amortecidas (?)

"Escreva bêbado, edite sóbrio"
         Ernest Hemingway


Eu sei em qual lado estou.
Neste em que se silencia
Os castelos da apatia
Deste anverso que restou,

Aqui figura a hemopatia
Da muralha que desmoronou,
Esta antinonimia não vigorou
Na estranheza da acrasia...

Aquela mesma de outrora,
Que reina e, pior, que vigora
Na síntese plena da negação,

Eu compactuo a tua sobra,
O mesmo vértice da aurora,
A cura sempre em distorção.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Masoquismo Diário

A insuficiência matinal alojou
mais esta mágoa insipiente
na já insuficiente
conjugação do que não sou,
eis o detrimento reticente
que Salomão amaldiçoou,
sua dualidade o sentenciou
ao ditame do eternamente,
esta onipresença enaltece
o velório que não acontece,
do intento à cadaveria...
a liturgia da deterioração
aqui, é a plena consignação
do que Masoch gostaria.